Picture SNOWSHOEING IN SANTA FE (NEW MEXICO, USA, March 2010)

Vicky Mundo Afora ou Mundoafora? Nao importa. É vida de imigrante. O mundo eh tao grande. Por que deveria passar minha vida inteira no Rio de Janeiro? Preciso viver e falar outras linguas, viver com e como outras pessoas. Um dia eu volto. Para onde? Ora, para casa. Onde eh casa mesmo?



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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Un Personaggio - Consuelo

Consuelo veio da "giú", como gostava de falar. Acho que "giú" era a Calabria mas nao tenho muita certeza. Ela chegou no convento junto com a mae, tinha acabado de se formar professora e o Estado a mandou para Treviso aguardar vaga. Ela era bonitinha, nada especial, uns 20 e pouquinho e tanta maquiagem no rosto que poderia dizer ter 50 fácil. Como vinha do interior, era muito inocente e tinha os hormonios borbulhando. Um dia até se mandou do convento as 5 da manha para ir a Bologna escondida, encontrar um "amigo virtual" que conheceu em algum chat. No meio do caminho desceu do trem e voltou atrás. Chegou no convento chorando: "O que meus pais vao pensar de mim!". Assim era a Consuelo.

Muito boazinha e prestativa. Tinha conselho para todo mundo. Mas também, como boa italiana, nao fala, URLA. Algumas vezes saí assustada do meu box achando que alguém batia nela no corredor, mas nao. Ela estava simplesmente contando uma história.

Bem, Consuelo tinha problemas para dormir, e perturbava todo mundo com isso. E onde é que ela dormia? No mesmo corredor de boxes que eu, claro. Na primeira noite to vendo um abajur que nao se apaga. Tinha que acordar cedo, mas a menina era nova entao nao queria incomodar. Achei que tivesse dormido de cansaco e esquecido de apagar luz. No dia seguinte perguntei. Resposta singela: "Tenho medo de escuro." - E eu com isso? Quer dizer que nao ia poder mais dormir? Como já tinha problemas suficientes naquela terra, resolvi colocar mascara de aviao para dormir. Mas as outras companheiras de corredor nao ficaram quietas (no que eu dei gracas a Deus). Arrumaram uma luzinha azul para Consuelo nao ficar na escuridao total e perturbar menos a gente.

Na primeira noite com a luz azul foi até tranquilo. Mas a mulherada falou tanto no ouvido da Consuelo, e riram tanto da cara dela que acho que ficou sem graca e tentou dormir sem a luz. Pra que! Ela ficava sonambula se nao tivesse luz. Dentro do box dela, com a porta trancada, as 3 da manha comecou a gritar chamando a Valentina. Valentina é a única italiana que conheci naquele lugar que nao era barraqueira. "Valentina! Valentina! Aiuto!!" "to caindo, Valentina, socorro!" "Eu nao quero ir, Valentina, me salva. Nao deixa, Valentina". Acenderam-se as luzes do convento, as 60 mulheres mais as freiras vieram para o nosso corredor saber o que estava acontecendo e uma outra débil mental dizendo para nao acordar porque senao ela morria, que nao se deve acordar sonambulo. Até que a freira apareceu com uma chave reserva, abriu o box, e a Consuelo sentada na cama toda descabelada, gritando e chorando. Levou uma sacudida que nao sei como o cérebro nao pulou fora do cranio. Acordou. Perguntou o que estava acontecendo, porque tanta gente estava ali no corredor? Metade do mulherio riu, outra metade saiu xingando.

Coitada da Valentina, tinha prova final no estágio dela na manha seguinte. Nem sei se passou. Mas o raio da lampadinha azul nunca mais foi apagada a noite.

***

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